sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A Criança Boa? Ou A Criança Ética?

A crença na bondade inata da criança. Foi neste pilar do pensamento de Jean Jacques Rousseau que vários educadores encontraram um ponto de partida para suas próprias idéias. Pestalozzi (1746-1827) e Tolstoi (1828-1910), em seus textos e práticas, fizeram clara referência a esta influência. Janus Korczak (1878-1942), embora ligado a Pestalozzi e Tolstoi, chama atenção para o fato de que uma criança “boa pode significar “fácil de lidar”; é preciso não confundir estes dois epítetos. Uma criança que não chora quase nunca (...): esta pode ser, para nós, uma criança boa. Desagradável é aquela caprichosa, que chora sem que a gente saiba por que...”. Inova também ao criar em sua instituição – um orfanato situado em Varsóvia –
uma verdadeira gestão democrática. Alexandre S. Neill (1883-1973), criador de Summerhill (Inglaterra), embora fortemente influenciado por Freud, carregava a crença absoluta na bondade da criança. Chegava mesmo a discordar de Freud, afirmando que suas teorias sobre a agressividade da criança foram desenvolvidas através da observação de crianças “deformadas por ambientes opressores” e que estas crianças eram “boas em sua essência, se longe dos males causados pela sociedade”. Assim, fica claro, nesta perspectiva, que se a criança é inatamente boa a ela se contrapõe, não a criança má (que não existe naturalmente), mas sim o adulto mau, opressor.

Leonardo Boff, em recente artigo, citou Kant que, por sua vez, falava sobre ética: “Aja de tal maneira que a máxima de tua vontade, sempre e ao mesmo tempo, possa valer como princípio de uma legislação universal”.

Uma constatação: o filósofo sugere que se deva agir... Outra: e agir de acordo com a máxima da sua vontade...

Agir significa manifestar-se; assim, ética implica em uma manifestação ajustada à vontade do sujeito – a justa vontade – e inatacável em seus princípios. Boff, reafirmando Kant, acrescenta: “Viva sua ética pessoal com tal excelência que ela possa valer sempre para todos os demais seres humanos”; isto é, que todos possam – tenham que – concordar com a legitimidade deste ato.

Exatamente como fazem os bebês e as crianças pequenas. Legitimamente expressam sua vontade – chorando, usando seus corpos – quando têm frio, fome, sede ou quando incomodadas com qualquer outra ameaça que elas mesmas ainda não sabem exatamente qual seja – um medo ainda longe de ser nomeado ou identificado precisamente; um misterioso e muito singular ponto de sua sensibilidade profunda.

Crianças são éticas no mais puro conceito kantiano, uma vez que sua ação expressa, “sempre e ao mesmo tempo” a “máxima de suas vontades” e “valem como um princípio universal”, pois todas as crianças devem ser supridas em suas necessidades visíveis e invisíveis.

Crianças são, assim, seres ativos – manifestam suas necessidades – e naturalmente éticos. Porém, à medida que se desenvolvem passam a ter a possibilidade de realizar escolhas em relação às suas manifestações; isto é, passam a ser capazes de escolher uma hipótese – entre outras – que lhes pareçam mais adequada, que traga maior sensação de bem estar a suas vidas.

Se a princípio as crianças são ativas na medida mesma de sua espontaneidade (manifestam o que simplesmente estão sentindo), vão descobrindo que, de modo generalíssimo, não têm campo livre para expressarem suas sensações, sentimentos, sua singularidade. Percebem que a sociedade, o terreno onde estão se organizando tem suas próprias leis e ordenações construídas ao longo de anos e anos de escolhas feitas por seus associados. Percebem também que estas leis, com freqüência, estão em desacordo com as leis ditadas por sua Individuação. As crianças, como qualquer ser vivo, sentem a necessidade de se adequarem sob pena de viver um profundo medo: o medo de não existir se não aceito. Deste modo, todos nos “adequamos”, abrimos mão de nossa legislação própria, passamos a ser quem não somos... até que os sinais desta, de fato, inadequação se tornam predominantes nos levando a buscar, agora maduros, uma entre as duas radicais alternativas: ou nos esquecemos definitivamente de quem realmente somos ou desorganizamos o que construímos e refazemos nosso caminho apontando a bússola para o norte inexorável: a individuação.

A perspectiva da criança ética, ao invés da criança boa, possibilita alguns comentários. (1) A expressão “criança boa” cria o perigo de opor esta criança ao “adulto mau” e, neste caso, a “criança boa” é percebida como vítima da ação opressiva – real, mesmo que muitas vezes inconsciente – do “adulto mau”. Esta qualidade de vítima impede que se perceba a ação ativa escolhida por aquela criança para se sentir melhor frente àquela circunstância. A criança age, não apenas uma reage, seja contrariamente seja na mesma direção da ação que lhe foi imposta. A “criança boa” sugere a falsa imagem de tabula rasa sobre a qual se inscreve o que se desejar, apenas reativa, dependente, de modo absoluto, da ação do adulto.

É importante que se perceba a criança como um ser ativo, pois é esta capacidade de escolha que lhe permitirá, em algum momento de seu desenvolvimento, perceber que a lei imposta pode não ser a sua própria lei; dar-se conta de sua legítima necessidade de manifestar a sua; de sua capacidade de se contrapor e propor novas combinações pelas quais se sente firmemente responsável; enfim,um ser construtor de sua autonomia.

(2) No mesmo contexto, a expressão “criança boa” favorece a simples culpabilização do “adulto mau” e, assim, se cria um sedutor álibi para que a criança não realize as transformações necessárias ao seu bem estar.

(3) Entre a “criança boa” e o “adulto mau” estabelece-se um conflito que esconde uma questão importante – que embora já delineada acima, merece maiores comentários: se a criança é boa, por que vira adulto mau? Se, no início, a criança não tinha alternativa, por que, tendo sobrevivido, ela não propõe uma nova ordem na qual suas manifestações sejam respeitadas? Por que ela continua esquecida de si mesma? Por que ela continua reativa, seja submetida às pressões, adotando estas mesmas pressões como sua própria norma – com as quais ela, agora, “educa” seus filhos -, seja brigando, rebelde, contra elas mas sem realmente alterar o status quo – aliás, freqüentemente, ao cabo de um tempo, aceitando-o?

Uma tentativa de resposta pode ser vislumbrada na condição de interdependência na qual vivemos. Somos únicos, independentes em nossa singularidade, profundamente solitários podemos dizer; entretanto, apenas existimos porque o Outro existe. Somos seres absolutamente dependentes, portanto. Se não fizermos parte da teia da existência seremos inviáveis. É necessário nos sentir parte da rede que constitui a Vida. Quando somos muito pequenos vivemos uma entrega completa ao que pede nossa ética pessoal e, assim, nos manifestamos claramente sobre o que necessitamos. Se somos supridos, vivemos; se não, seremos excluídos da rede, morremos, deixamos de existir – esta a tremenda sensação percebida por cada um de nós. Aos poucos – às vezes muito precocemente e nem tão aos poucos – percebemos que algumas de nossas manifestações não são bem aceitas e – com deliciosa malícia, diria Janus Korczak – realizamos escolhas que, supomos, vão nos manter vivos, aceitos, seres com permissão para existir.

Tais escolhas são, básica e didaticamente, duas – nenhuma melhor que a outra. São, ambas, defensivas, isto é, negam a ética pessoal para nos colocar adequados à ética social e, deste modo, nos transmitem uma certa sensação de segurança – falsa, pois às custas de nossa legítima singularidade. E é, cabe dizer, na vivência ajustada à nossa Individuação que encontramos a verdadeira sensação de segurança e paz. As duas escolhas: (1) uma atitude de caráter introspectivo, yin, contraída, submissa ou (2) outra de caráter extrovertida, yang, expansiva, impositiva. Esta última está em consonância com a forma pela qual a sociedade moderna se organiza e, muito freqüentemente, não são consideradas como inadequadas e, por algum tempo, são confundidas com sucesso. É bom lembrar que estas possibilidades podem ser usadas adequadamente – uma vez que elas não carregam em si uma adjetivação, são forças naturais e indispensáveis à vida – e, neste caso, conformarão atitudes protetoras, não defensivas, não negadoras da ética pessoal; ao contrário, são as ferramentas necessárias para a construção de uma estrutura de bem estar e liberdade.

As instituições sociais são, infelizmente mas de modo geral, construídas por seres que esqueceram suas éticas pessoais e aprofundaram uma atitude defensiva doentia e negadora da vida. Pessoas que temerosas e distantes de seus fluxos vitais primordiais, sentindo-se profundamente ameaçadas de serem excluídas do processo vital criaram estruturas que “produzem, mensuram valores” e hierarquizam pessoas, grupos sociais que mantêm a idéia de que o critério de uma pessoa – do grupo dominante – vai determinar o que e quando outra pessoa – do grupo dominado – deve aprender ou ser. Ambos os grupos estão doentes de doenças diametralmente opostas.

As aspas revelam palavras de Ivan Illich em relação, especificamente, a uma destas instituições: a escola. Duramente ele se refere à escola como um lugar cujo resultado final termina por “bitolar a visão humana da realidade”, um lugar que trabalha no sentido de ajudar “os alunos a adaptarem seus desejos – abrindo mão de si mesmos – aos valores à venda”.

Aquele que está, realmente, disposto a propor – e viver – uma Pedagogia Libertária, uma Educação, de fato, Democrática, precisa estar disponível, com coragem e ternura, a reencontrar-se consigo mesmo, a manifestar-se de acordo com sua Individuação, a recuperar e responsabilizar-se por sua ética pessoal, a distinguir a verdadeira responsabilidade pessoal, real, de outra, falsa e ilusória e a, profundamente, respeitar a ética do Outro: a criança, a jovem, o jovem.

Cumuruxatiba, agosto de 2007

Alexandre Cavalcanti
Coordenador do Projeto de Gente