Rainer Maria Rilke escreveu para um amigo: “Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar, - como uma maneira de ser particularmente feliz e pura.”
Todo adulto deve falar assim para si mesmo e, talvez principalmente, falar o mesmo para toda e cada criança (claro que não exatamente nessas palavras, e sim na fala-ação das crianças).
Todo adulto deve se perguntar, todos os dias, qual a pergunta sobre si mesmo ele ainda não tem a resposta; qual a pergunta ele precisa ainda viver. E, ouvindo-a, nenhum adulto deve negá-la sob pena de jamais viver a resposta, construindo, deste modo, uma vida incompleta.
Todo adulto tem o direito de ter o tempo necessário para, “aos poucos, sem que perceba, num dia longínquo, conseguir viver a resposta”, e, assim, organizar uma vida mais plena.
Todo adulto deve falar assim para si mesmo e, talvez principalmente, falar o mesmo para toda e cada criança, pois todos nós nascemos, cada criança nasce, com uma, ou melhor, várias perguntas para as quais ela não terá resposta por um longo tempo. Perguntas cujas respostas estão já prontas, respondidas, em algum recanto de seu interior, uma vez que todos já somos nuclearmente quem somos desde que nascemos – nossa impressão digital não nasce em nosso irmão ou irmã –; porém ela, a criança, precisa aprender a formular as perguntas, as tão humanas perguntas: o que, realmente, desejo da vida?, onde sinto mais dor?, a que sou mais sensível?, do que necessito para, realmente, me sentir vivo? Perguntas do corpo e da alma, antigas, muito antigas perguntas: quem sou?, como organizo meu bem-estar?
Assim como nascemos objetivamente incompletos – faltam-nos dentes, enzimas no aparelho digestivo, capas de proteção dos neurônios, etc e etc -, também nascemos sutilmente incompletos – falta-nos consciência de quem somos.
Todo adulto deve oferecer campo, o mais fértil que puder, para que cada criança possa descobrir e viver suas perguntas; nenhum adulto deve, sequer tentar, respondê-las por elas. Ao contrário, deve ajudá-las a perceber que ninguém “deve (apenas) olhar para fora (para responder suas perguntas); que não há senão um caminho: procure entrar em si mesmo; (...) examine-se, estenda suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo (...) na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado (a ser, a realizar, isto que sinto que sou)?’. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa sua vida de acordo com esta necessidade”, volta a nos ensinar Rilke.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, maio/08
domingo, 10 de agosto de 2008
A CRIANÇA LEGAL, A CRIANÇA ILEGAL
Direto ao ponto: quando dizemos que uma criança é legal, bacana, estamos, no contraponto, dizendo que outra não é legal, não é bacana. Neste momento, estamos fazendo um julgamento – muito provavelmente, fundado em nossos próprios sentimentos, sensações, vivências – e realizando uma escolha; isto é, preferimos este àquele, o “legal” ao “não legal”.
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
A CRIANÇA LEGAL, A CRIANÇA ILEGAL
A CRIANÇA LEGAL,A CRIANÇA ILEGAL
Direto ao ponto: quando dizemos que uma criança é legal, bacana, estamos, no contraponto, dizendo que outra não é legal, não é bacana. Neste momento, estamos fazendo um julgamento – muito provavelmente, fundado em nossos próprios sentimentos, sensações, vivências – e realizando uma escolha; isto é, preferimos este àquele, o “legal” ao “não legal”.
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
Direto ao ponto: quando dizemos que uma criança é legal, bacana, estamos, no contraponto, dizendo que outra não é legal, não é bacana. Neste momento, estamos fazendo um julgamento – muito provavelmente, fundado em nossos próprios sentimentos, sensações, vivências – e realizando uma escolha; isto é, preferimos este àquele, o “legal” ao “não legal”.
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
UMA REDE DE PROTEÇÃO
(reflexões, estratégias e ferramentas)
Vamos imaginar um cenário: um circo de lona azul... solto no espaço e, nele, um grupo de pessoas cujo sentido de vida – ou projeto de vida, instinto vital – é... brincar no trapézio.
Bebês, crianças pequenas, meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres maduros, idosos e idosas estão balançando em inúmeros trapézios. Alguns deles cruzam suas trajetórias, exigindo harmonia de movimentos e combinações; outros estão badalando sozinhos. Existem os que estão apenas sentados – os olhos arregalados -, segurando com as duas mãos as cordas que prendem o trapézio ao teto; os muito pequeninos têm um cinto de segurança; outros, maiores, arriscam saltos, piruetas no ar; aqui e ali velhos homens e mulheres, mais experientes, deslizam sentados e ensinam truques, dão algumas dicas aos mais jovens que, reconhecendo suas possibilidades e limitações, arriscam, experimentam, ganham coragem, constroem autonomia e coreografias pessoais.
Porém, de vez em quando, alguém despenca no vazio, tenta agarrar-se ao trapézio, a uma solidária mão estendida, em vão. A queda é assustadora, a velocidade crescente paralisa a respiração, o grito fica preso na garganta contraída, o chão aproxima-se rápido, o prazer do balanço, a alegria da brincadeira transformam-se, súbito, em MEDO, MEDOS: de nunca mais brincar no trapézio, de não mais sentir o vento no rosto, de não mais se alegrar quando o truque combinado funciona e o companheiro está em segurança depois do salto no espaço. Medo de morrer, medo de perder a motivação para viver, medo de não mais existir.
Feliz aquele que encontra uma REDE no meio da queda e pode, então, mais experiente, reorganizar-se e voltar ao trapézio, à vida plena; feliz a comunidade que constrói, conserva e aprimora esta REDE; feliz a sociedade que se despede, pacificada e serenamente, de seus velhos e velhas quando estes caem, naturalmente, de seus trapézios e adormecem antes de alcançar a rede que, agora, os aconchega.
O Projeto de Gente deseja, e se propõe a, participar da construção de uma REDE DE PROTEÇÃO para as crianças e jovens de Cumuruxatiba e, por extensão, para toda comunidade.
Embora não seja o mais importante, é interessante definir o que é REDE, no sentido que estamos usando. Na definição de Cássio Martins, REDE é “uma forma de organização democrática constituída por elementos autônomos, interligados de maneira horizontal – uns ao lado de outros – e que cooperam entre si” [1].
Quando pessoas se organizam, o mais freqüente é construírem uma estrutura em que uns estão acima de outros – como uma pirâmide, com o presidente no topo. Propomos uma alternativa: construir uma estrutura horizontal, não vertical; entrelaçada, não em forma de pirâmide; que ligue pessoas e também pessoas que participam de associações que desejam compartilhar o mesmo objetivo.
Qual a possível contribuição do Projeto de Gente para que se possa tecer esta rede?
Nosso foco inicial e principal é, e sempre será, as crianças e os jovens. Estaremos sempre voltados para eles, pois, o trabalho “tem, acima de tudo, a intenção de reconhecer, valorizar e favorecer a legítima manifestação do projeto de vida que cada um traz, misteriosa mas legitimamente, inscrito em si mesmo”. Este o ponto de partida... e de chegada!
Como moramos numa vila chamada Cumuruxatiba, estamos, naturalmente, nos referindo às crianças e jovens que vivem em Cumuruxatiba. Daí a importância de conhecer – sempre mais e através do olhar das crianças e de suas famílias, não importando se nascidas aqui ou não – a realidade em que vivem; realidade pessoal e comunitária.
A metodologia que apresentamos a seguir, com algumas alterações por conta das diferenças regionais, é profundamente inspirada na experiência do Espaço Compartilharte, um trabalho social e educativo vivido junto às famílias da zona rural de Teresópolis, RJ.
De modo que, definido o grupo de crianças junto ao qual estaremos trabalhando, propomos:
“ 1. Conhecer – mais e melhor – a comunidade, (re)construindo a história da vila de modo participativo e compartilhado.
Como é a história da vila? Como você conta a história da vila?
Como se originou?
De onde vem seu nome?
De onde vêm seus moradores?
O que é bom e fácil, chato e difícil ao morar nesta comunidade?
Quais os grupos e organizações que atuam na vila?
Como realizar a pesquisa? Visitas domiciliares, eventos na sede do Projeto para este fim, oficinas sobre o tema, pesquisa histórica, etc.
2. Conhecer as famílias (família, tema sempre delicado!)
Como é a história de sua família? Como contam esta história?
Como ela é composta?
De onde vem seu nome?
Como estão vivendo hoje?
Como realizar a pesquisa? Visitas domiciliares, eventos e oficinas na sede do Projeto.
3. Conhecer as organizações que podem interagir com o Projeto de Gente na construção da rede.
Quais são estas organizações?
Como pode ser feita a interação?
O que pode facilitar e o que pode dificultar as ações interligadas?
Quais são as “agulhas e linhas” que o Projeto de Gente pode oferecer para ajudar a tecer a rede?
1. Corações e mentes permanentemente abertos para ouvir os sinais que expressam quem é, de verdade, cada determinada – e única – criança: sua Individuação.
2. Um cotidiano vivido em bases democráticas onde, nas assembléias e rodas diárias, a criança e o jovem – na medida de sua idade e interesses – têm vozes ativas e decisivas.
3. Oficinas de Saber e Fazer. Os projetos de trabalho – sempre que possível criados a partir dos interesses manifestados pelas crianças – através dos quais vão ganhar conhecimentos, informações. São constituídos por grupos definidos de pessoas.
4. Eventos sociais com foco na convivência e compartilhamento de conhecimentos e habilidades.
5. Atividades geradoras de renda. Atividades que podem acontecer na própria sede do Projeto e que podem contar com pessoas da comunidade envolvidas com os conceitos do trabalho.
6. Visitas domiciliares, encontros individuais ou com familiares na casinha do Projeto com o objetivo de criar focos de reflexões, debates, vivências e, quem sabe, soluções de questões individuais ou comuns.
Além disso, o próprio Projeto deve:
1. Organizar espaços de reflexão e desenvolvimento de seus profissionais, isto é, estar sempre atento a exercícios de capacitação através de constante troca de impressões, estudos de temas afinados ao trabalho. Claro que com a marca do Projeto de Gente: leveza e seriedade ao mesmo tempo.
2. Estudar formas de avaliação do trabalho; desenvolver processos de planejamento que organizem os passos do trabalho; criar formas de registrar as vivências e o conhecimento acumulado ao longo de sua existência.
3. Expor suas idéias, sempre que possível, em fóruns adequados e contributivos ao seu desenvolvimento.”
Alexandre Cavalcanti
Coordenador do Projeto de GenteCumuruxatiba, 10 / 08 / 2007
[1] Ver: MARTINS, Cássio. Rede: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. São Paulo : WWF. 1ª ed., 2003.
Vamos imaginar um cenário: um circo de lona azul... solto no espaço e, nele, um grupo de pessoas cujo sentido de vida – ou projeto de vida, instinto vital – é... brincar no trapézio.
Bebês, crianças pequenas, meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres maduros, idosos e idosas estão balançando em inúmeros trapézios. Alguns deles cruzam suas trajetórias, exigindo harmonia de movimentos e combinações; outros estão badalando sozinhos. Existem os que estão apenas sentados – os olhos arregalados -, segurando com as duas mãos as cordas que prendem o trapézio ao teto; os muito pequeninos têm um cinto de segurança; outros, maiores, arriscam saltos, piruetas no ar; aqui e ali velhos homens e mulheres, mais experientes, deslizam sentados e ensinam truques, dão algumas dicas aos mais jovens que, reconhecendo suas possibilidades e limitações, arriscam, experimentam, ganham coragem, constroem autonomia e coreografias pessoais.
Porém, de vez em quando, alguém despenca no vazio, tenta agarrar-se ao trapézio, a uma solidária mão estendida, em vão. A queda é assustadora, a velocidade crescente paralisa a respiração, o grito fica preso na garganta contraída, o chão aproxima-se rápido, o prazer do balanço, a alegria da brincadeira transformam-se, súbito, em MEDO, MEDOS: de nunca mais brincar no trapézio, de não mais sentir o vento no rosto, de não mais se alegrar quando o truque combinado funciona e o companheiro está em segurança depois do salto no espaço. Medo de morrer, medo de perder a motivação para viver, medo de não mais existir.
Feliz aquele que encontra uma REDE no meio da queda e pode, então, mais experiente, reorganizar-se e voltar ao trapézio, à vida plena; feliz a comunidade que constrói, conserva e aprimora esta REDE; feliz a sociedade que se despede, pacificada e serenamente, de seus velhos e velhas quando estes caem, naturalmente, de seus trapézios e adormecem antes de alcançar a rede que, agora, os aconchega.
O Projeto de Gente deseja, e se propõe a, participar da construção de uma REDE DE PROTEÇÃO para as crianças e jovens de Cumuruxatiba e, por extensão, para toda comunidade.
Embora não seja o mais importante, é interessante definir o que é REDE, no sentido que estamos usando. Na definição de Cássio Martins, REDE é “uma forma de organização democrática constituída por elementos autônomos, interligados de maneira horizontal – uns ao lado de outros – e que cooperam entre si” [1].
Quando pessoas se organizam, o mais freqüente é construírem uma estrutura em que uns estão acima de outros – como uma pirâmide, com o presidente no topo. Propomos uma alternativa: construir uma estrutura horizontal, não vertical; entrelaçada, não em forma de pirâmide; que ligue pessoas e também pessoas que participam de associações que desejam compartilhar o mesmo objetivo.
Qual a possível contribuição do Projeto de Gente para que se possa tecer esta rede?
Nosso foco inicial e principal é, e sempre será, as crianças e os jovens. Estaremos sempre voltados para eles, pois, o trabalho “tem, acima de tudo, a intenção de reconhecer, valorizar e favorecer a legítima manifestação do projeto de vida que cada um traz, misteriosa mas legitimamente, inscrito em si mesmo”. Este o ponto de partida... e de chegada!
Como moramos numa vila chamada Cumuruxatiba, estamos, naturalmente, nos referindo às crianças e jovens que vivem em Cumuruxatiba. Daí a importância de conhecer – sempre mais e através do olhar das crianças e de suas famílias, não importando se nascidas aqui ou não – a realidade em que vivem; realidade pessoal e comunitária.
A metodologia que apresentamos a seguir, com algumas alterações por conta das diferenças regionais, é profundamente inspirada na experiência do Espaço Compartilharte, um trabalho social e educativo vivido junto às famílias da zona rural de Teresópolis, RJ.
De modo que, definido o grupo de crianças junto ao qual estaremos trabalhando, propomos:
“ 1. Conhecer – mais e melhor – a comunidade, (re)construindo a história da vila de modo participativo e compartilhado.
Como é a história da vila? Como você conta a história da vila?
Como se originou?
De onde vem seu nome?
De onde vêm seus moradores?
O que é bom e fácil, chato e difícil ao morar nesta comunidade?
Quais os grupos e organizações que atuam na vila?
Como realizar a pesquisa? Visitas domiciliares, eventos na sede do Projeto para este fim, oficinas sobre o tema, pesquisa histórica, etc.
2. Conhecer as famílias (família, tema sempre delicado!)
Como é a história de sua família? Como contam esta história?
Como ela é composta?
De onde vem seu nome?
Como estão vivendo hoje?
Como realizar a pesquisa? Visitas domiciliares, eventos e oficinas na sede do Projeto.
3. Conhecer as organizações que podem interagir com o Projeto de Gente na construção da rede.
Quais são estas organizações?
Como pode ser feita a interação?
O que pode facilitar e o que pode dificultar as ações interligadas?
Quais são as “agulhas e linhas” que o Projeto de Gente pode oferecer para ajudar a tecer a rede?
1. Corações e mentes permanentemente abertos para ouvir os sinais que expressam quem é, de verdade, cada determinada – e única – criança: sua Individuação.
2. Um cotidiano vivido em bases democráticas onde, nas assembléias e rodas diárias, a criança e o jovem – na medida de sua idade e interesses – têm vozes ativas e decisivas.
3. Oficinas de Saber e Fazer. Os projetos de trabalho – sempre que possível criados a partir dos interesses manifestados pelas crianças – através dos quais vão ganhar conhecimentos, informações. São constituídos por grupos definidos de pessoas.
4. Eventos sociais com foco na convivência e compartilhamento de conhecimentos e habilidades.
5. Atividades geradoras de renda. Atividades que podem acontecer na própria sede do Projeto e que podem contar com pessoas da comunidade envolvidas com os conceitos do trabalho.
6. Visitas domiciliares, encontros individuais ou com familiares na casinha do Projeto com o objetivo de criar focos de reflexões, debates, vivências e, quem sabe, soluções de questões individuais ou comuns.
Além disso, o próprio Projeto deve:
1. Organizar espaços de reflexão e desenvolvimento de seus profissionais, isto é, estar sempre atento a exercícios de capacitação através de constante troca de impressões, estudos de temas afinados ao trabalho. Claro que com a marca do Projeto de Gente: leveza e seriedade ao mesmo tempo.
2. Estudar formas de avaliação do trabalho; desenvolver processos de planejamento que organizem os passos do trabalho; criar formas de registrar as vivências e o conhecimento acumulado ao longo de sua existência.
3. Expor suas idéias, sempre que possível, em fóruns adequados e contributivos ao seu desenvolvimento.”
Alexandre Cavalcanti
Coordenador do Projeto de GenteCumuruxatiba, 10 / 08 / 2007
[1] Ver: MARTINS, Cássio. Rede: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. São Paulo : WWF. 1ª ed., 2003.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Canto da aurora
Vou revelar um segredo:
algo novo está nascendo!
Padrinhos já estão a postos:
brisa soprando de Abrolhos,
marolas, ondas do mar,
papagaios de mil cores,
e lua cheia a brilhar.
Algo novo está nascendo!
Algo novo está nascendo,
sonho feito construção.
Crianças vindo da escola,
roupas simples, pés no chão.
Algo novo está nascendo,
discreto, pequeno e leve,
do tamanho que podemos,
torrente de vida em breve.
O sonho se faz com pouco,
não sobra dinheiro não.
Uma casa pequenina,
caderno e lápis na mão,
argila, ancestral matéria,
oferta do rude chão.
Jogo de bola na rua,
corpo, alma, coração.
Corram todos, venham logo,
já não se pode esperar.
No céu cintilando Peixes,
Na praia, estrelas do mar.
Soleira de um mundo novo,
o sonho se faz presente:
algo novo está nascendo,
um tal ... Projeto de Gente!
João Bastos
algo novo está nascendo!
Padrinhos já estão a postos:
brisa soprando de Abrolhos,
marolas, ondas do mar,
papagaios de mil cores,
e lua cheia a brilhar.
Algo novo está nascendo!
Algo novo está nascendo,
sonho feito construção.
Crianças vindo da escola,
roupas simples, pés no chão.
Algo novo está nascendo,
discreto, pequeno e leve,
do tamanho que podemos,
torrente de vida em breve.
O sonho se faz com pouco,
não sobra dinheiro não.
Uma casa pequenina,
caderno e lápis na mão,
argila, ancestral matéria,
oferta do rude chão.
Jogo de bola na rua,
corpo, alma, coração.
Corram todos, venham logo,
já não se pode esperar.
No céu cintilando Peixes,
Na praia, estrelas do mar.
Soleira de um mundo novo,
o sonho se faz presente:
algo novo está nascendo,
um tal ... Projeto de Gente!
João Bastos
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
A Criança Boa? Ou A Criança Ética?
A crença na bondade inata da criança. Foi neste pilar do pensamento de Jean Jacques Rousseau que vários educadores encontraram um ponto de partida para suas próprias idéias. Pestalozzi (1746-1827) e Tolstoi (1828-1910), em seus textos e práticas, fizeram clara referência a esta influência. Janus Korczak (1878-1942), embora ligado a Pestalozzi e Tolstoi, chama atenção para o fato de que uma criança “boa pode significar “fácil de lidar”; é preciso não confundir estes dois epítetos. Uma criança que não chora quase nunca (...): esta pode ser, para nós, uma criança boa. Desagradável é aquela caprichosa, que chora sem que a gente saiba por que...”. Inova também ao criar em sua instituição – um orfanato situado em Varsóvia –
uma verdadeira gestão democrática. Alexandre S. Neill (1883-1973), criador de Summerhill (Inglaterra), embora fortemente influenciado por Freud, carregava a crença absoluta na bondade da criança. Chegava mesmo a discordar de Freud, afirmando que suas teorias sobre a agressividade da criança foram desenvolvidas através da observação de crianças “deformadas por ambientes opressores” e que estas crianças eram “boas em sua essência, se longe dos males causados pela sociedade”. Assim, fica claro, nesta perspectiva, que se a criança é inatamente boa a ela se contrapõe, não a criança má (que não existe naturalmente), mas sim o adulto mau, opressor.
Leonardo Boff, em recente artigo, citou Kant que, por sua vez, falava sobre ética: “Aja de tal maneira que a máxima de tua vontade, sempre e ao mesmo tempo, possa valer como princípio de uma legislação universal”.
Uma constatação: o filósofo sugere que se deva agir... Outra: e agir de acordo com a máxima da sua vontade...
Agir significa manifestar-se; assim, ética implica em uma manifestação ajustada à vontade do sujeito – a justa vontade – e inatacável em seus princípios. Boff, reafirmando Kant, acrescenta: “Viva sua ética pessoal com tal excelência que ela possa valer sempre para todos os demais seres humanos”; isto é, que todos possam – tenham que – concordar com a legitimidade deste ato.
Exatamente como fazem os bebês e as crianças pequenas. Legitimamente expressam sua vontade – chorando, usando seus corpos – quando têm frio, fome, sede ou quando incomodadas com qualquer outra ameaça que elas mesmas ainda não sabem exatamente qual seja – um medo ainda longe de ser nomeado ou identificado precisamente; um misterioso e muito singular ponto de sua sensibilidade profunda.
Crianças são éticas no mais puro conceito kantiano, uma vez que sua ação expressa, “sempre e ao mesmo tempo” a “máxima de suas vontades” e “valem como um princípio universal”, pois todas as crianças devem ser supridas em suas necessidades visíveis e invisíveis.
Crianças são, assim, seres ativos – manifestam suas necessidades – e naturalmente éticos. Porém, à medida que se desenvolvem passam a ter a possibilidade de realizar escolhas em relação às suas manifestações; isto é, passam a ser capazes de escolher uma hipótese – entre outras – que lhes pareçam mais adequada, que traga maior sensação de bem estar a suas vidas.
Se a princípio as crianças são ativas na medida mesma de sua espontaneidade (manifestam o que simplesmente estão sentindo), vão descobrindo que, de modo generalíssimo, não têm campo livre para expressarem suas sensações, sentimentos, sua singularidade. Percebem que a sociedade, o terreno onde estão se organizando tem suas próprias leis e ordenações construídas ao longo de anos e anos de escolhas feitas por seus associados. Percebem também que estas leis, com freqüência, estão em desacordo com as leis ditadas por sua Individuação. As crianças, como qualquer ser vivo, sentem a necessidade de se adequarem sob pena de viver um profundo medo: o medo de não existir se não aceito. Deste modo, todos nos “adequamos”, abrimos mão de nossa legislação própria, passamos a ser quem não somos... até que os sinais desta, de fato, inadequação se tornam predominantes nos levando a buscar, agora maduros, uma entre as duas radicais alternativas: ou nos esquecemos definitivamente de quem realmente somos ou desorganizamos o que construímos e refazemos nosso caminho apontando a bússola para o norte inexorável: a individuação.
A perspectiva da criança ética, ao invés da criança boa, possibilita alguns comentários. (1) A expressão “criança boa” cria o perigo de opor esta criança ao “adulto mau” e, neste caso, a “criança boa” é percebida como vítima da ação opressiva – real, mesmo que muitas vezes inconsciente – do “adulto mau”. Esta qualidade de vítima impede que se perceba a ação ativa escolhida por aquela criança para se sentir melhor frente àquela circunstância. A criança age, não apenas uma reage, seja contrariamente seja na mesma direção da ação que lhe foi imposta. A “criança boa” sugere a falsa imagem de tabula rasa sobre a qual se inscreve o que se desejar, apenas reativa, dependente, de modo absoluto, da ação do adulto.
É importante que se perceba a criança como um ser ativo, pois é esta capacidade de escolha que lhe permitirá, em algum momento de seu desenvolvimento, perceber que a lei imposta pode não ser a sua própria lei; dar-se conta de sua legítima necessidade de manifestar a sua; de sua capacidade de se contrapor e propor novas combinações pelas quais se sente firmemente responsável; enfim,um ser construtor de sua autonomia.
(2) No mesmo contexto, a expressão “criança boa” favorece a simples culpabilização do “adulto mau” e, assim, se cria um sedutor álibi para que a criança não realize as transformações necessárias ao seu bem estar.
(3) Entre a “criança boa” e o “adulto mau” estabelece-se um conflito que esconde uma questão importante – que embora já delineada acima, merece maiores comentários: se a criança é boa, por que vira adulto mau? Se, no início, a criança não tinha alternativa, por que, tendo sobrevivido, ela não propõe uma nova ordem na qual suas manifestações sejam respeitadas? Por que ela continua esquecida de si mesma? Por que ela continua reativa, seja submetida às pressões, adotando estas mesmas pressões como sua própria norma – com as quais ela, agora, “educa” seus filhos -, seja brigando, rebelde, contra elas mas sem realmente alterar o status quo – aliás, freqüentemente, ao cabo de um tempo, aceitando-o?
Uma tentativa de resposta pode ser vislumbrada na condição de interdependência na qual vivemos. Somos únicos, independentes em nossa singularidade, profundamente solitários podemos dizer; entretanto, apenas existimos porque o Outro existe. Somos seres absolutamente dependentes, portanto. Se não fizermos parte da teia da existência seremos inviáveis. É necessário nos sentir parte da rede que constitui a Vida. Quando somos muito pequenos vivemos uma entrega completa ao que pede nossa ética pessoal e, assim, nos manifestamos claramente sobre o que necessitamos. Se somos supridos, vivemos; se não, seremos excluídos da rede, morremos, deixamos de existir – esta a tremenda sensação percebida por cada um de nós. Aos poucos – às vezes muito precocemente e nem tão aos poucos – percebemos que algumas de nossas manifestações não são bem aceitas e – com deliciosa malícia, diria Janus Korczak – realizamos escolhas que, supomos, vão nos manter vivos, aceitos, seres com permissão para existir.
Tais escolhas são, básica e didaticamente, duas – nenhuma melhor que a outra. São, ambas, defensivas, isto é, negam a ética pessoal para nos colocar adequados à ética social e, deste modo, nos transmitem uma certa sensação de segurança – falsa, pois às custas de nossa legítima singularidade. E é, cabe dizer, na vivência ajustada à nossa Individuação que encontramos a verdadeira sensação de segurança e paz. As duas escolhas: (1) uma atitude de caráter introspectivo, yin, contraída, submissa ou (2) outra de caráter extrovertida, yang, expansiva, impositiva. Esta última está em consonância com a forma pela qual a sociedade moderna se organiza e, muito freqüentemente, não são consideradas como inadequadas e, por algum tempo, são confundidas com sucesso. É bom lembrar que estas possibilidades podem ser usadas adequadamente – uma vez que elas não carregam em si uma adjetivação, são forças naturais e indispensáveis à vida – e, neste caso, conformarão atitudes protetoras, não defensivas, não negadoras da ética pessoal; ao contrário, são as ferramentas necessárias para a construção de uma estrutura de bem estar e liberdade.
As instituições sociais são, infelizmente mas de modo geral, construídas por seres que esqueceram suas éticas pessoais e aprofundaram uma atitude defensiva doentia e negadora da vida. Pessoas que temerosas e distantes de seus fluxos vitais primordiais, sentindo-se profundamente ameaçadas de serem excluídas do processo vital criaram estruturas que “produzem, mensuram valores” e hierarquizam pessoas, grupos sociais que mantêm a idéia de que o critério de uma pessoa – do grupo dominante – vai determinar o que e quando outra pessoa – do grupo dominado – deve aprender ou ser. Ambos os grupos estão doentes de doenças diametralmente opostas.
As aspas revelam palavras de Ivan Illich em relação, especificamente, a uma destas instituições: a escola. Duramente ele se refere à escola como um lugar cujo resultado final termina por “bitolar a visão humana da realidade”, um lugar que trabalha no sentido de ajudar “os alunos a adaptarem seus desejos – abrindo mão de si mesmos – aos valores à venda”.
Aquele que está, realmente, disposto a propor – e viver – uma Pedagogia Libertária, uma Educação, de fato, Democrática, precisa estar disponível, com coragem e ternura, a reencontrar-se consigo mesmo, a manifestar-se de acordo com sua Individuação, a recuperar e responsabilizar-se por sua ética pessoal, a distinguir a verdadeira responsabilidade pessoal, real, de outra, falsa e ilusória e a, profundamente, respeitar a ética do Outro: a criança, a jovem, o jovem.
Cumuruxatiba, agosto de 2007
Alexandre Cavalcanti
Coordenador do Projeto de Gente
uma verdadeira gestão democrática. Alexandre S. Neill (1883-1973), criador de Summerhill (Inglaterra), embora fortemente influenciado por Freud, carregava a crença absoluta na bondade da criança. Chegava mesmo a discordar de Freud, afirmando que suas teorias sobre a agressividade da criança foram desenvolvidas através da observação de crianças “deformadas por ambientes opressores” e que estas crianças eram “boas em sua essência, se longe dos males causados pela sociedade”. Assim, fica claro, nesta perspectiva, que se a criança é inatamente boa a ela se contrapõe, não a criança má (que não existe naturalmente), mas sim o adulto mau, opressor.
Leonardo Boff, em recente artigo, citou Kant que, por sua vez, falava sobre ética: “Aja de tal maneira que a máxima de tua vontade, sempre e ao mesmo tempo, possa valer como princípio de uma legislação universal”.
Uma constatação: o filósofo sugere que se deva agir... Outra: e agir de acordo com a máxima da sua vontade...
Agir significa manifestar-se; assim, ética implica em uma manifestação ajustada à vontade do sujeito – a justa vontade – e inatacável em seus princípios. Boff, reafirmando Kant, acrescenta: “Viva sua ética pessoal com tal excelência que ela possa valer sempre para todos os demais seres humanos”; isto é, que todos possam – tenham que – concordar com a legitimidade deste ato.
Exatamente como fazem os bebês e as crianças pequenas. Legitimamente expressam sua vontade – chorando, usando seus corpos – quando têm frio, fome, sede ou quando incomodadas com qualquer outra ameaça que elas mesmas ainda não sabem exatamente qual seja – um medo ainda longe de ser nomeado ou identificado precisamente; um misterioso e muito singular ponto de sua sensibilidade profunda.
Crianças são éticas no mais puro conceito kantiano, uma vez que sua ação expressa, “sempre e ao mesmo tempo” a “máxima de suas vontades” e “valem como um princípio universal”, pois todas as crianças devem ser supridas em suas necessidades visíveis e invisíveis.
Crianças são, assim, seres ativos – manifestam suas necessidades – e naturalmente éticos. Porém, à medida que se desenvolvem passam a ter a possibilidade de realizar escolhas em relação às suas manifestações; isto é, passam a ser capazes de escolher uma hipótese – entre outras – que lhes pareçam mais adequada, que traga maior sensação de bem estar a suas vidas.
Se a princípio as crianças são ativas na medida mesma de sua espontaneidade (manifestam o que simplesmente estão sentindo), vão descobrindo que, de modo generalíssimo, não têm campo livre para expressarem suas sensações, sentimentos, sua singularidade. Percebem que a sociedade, o terreno onde estão se organizando tem suas próprias leis e ordenações construídas ao longo de anos e anos de escolhas feitas por seus associados. Percebem também que estas leis, com freqüência, estão em desacordo com as leis ditadas por sua Individuação. As crianças, como qualquer ser vivo, sentem a necessidade de se adequarem sob pena de viver um profundo medo: o medo de não existir se não aceito. Deste modo, todos nos “adequamos”, abrimos mão de nossa legislação própria, passamos a ser quem não somos... até que os sinais desta, de fato, inadequação se tornam predominantes nos levando a buscar, agora maduros, uma entre as duas radicais alternativas: ou nos esquecemos definitivamente de quem realmente somos ou desorganizamos o que construímos e refazemos nosso caminho apontando a bússola para o norte inexorável: a individuação.
A perspectiva da criança ética, ao invés da criança boa, possibilita alguns comentários. (1) A expressão “criança boa” cria o perigo de opor esta criança ao “adulto mau” e, neste caso, a “criança boa” é percebida como vítima da ação opressiva – real, mesmo que muitas vezes inconsciente – do “adulto mau”. Esta qualidade de vítima impede que se perceba a ação ativa escolhida por aquela criança para se sentir melhor frente àquela circunstância. A criança age, não apenas uma reage, seja contrariamente seja na mesma direção da ação que lhe foi imposta. A “criança boa” sugere a falsa imagem de tabula rasa sobre a qual se inscreve o que se desejar, apenas reativa, dependente, de modo absoluto, da ação do adulto.
É importante que se perceba a criança como um ser ativo, pois é esta capacidade de escolha que lhe permitirá, em algum momento de seu desenvolvimento, perceber que a lei imposta pode não ser a sua própria lei; dar-se conta de sua legítima necessidade de manifestar a sua; de sua capacidade de se contrapor e propor novas combinações pelas quais se sente firmemente responsável; enfim,um ser construtor de sua autonomia.
(2) No mesmo contexto, a expressão “criança boa” favorece a simples culpabilização do “adulto mau” e, assim, se cria um sedutor álibi para que a criança não realize as transformações necessárias ao seu bem estar.
(3) Entre a “criança boa” e o “adulto mau” estabelece-se um conflito que esconde uma questão importante – que embora já delineada acima, merece maiores comentários: se a criança é boa, por que vira adulto mau? Se, no início, a criança não tinha alternativa, por que, tendo sobrevivido, ela não propõe uma nova ordem na qual suas manifestações sejam respeitadas? Por que ela continua esquecida de si mesma? Por que ela continua reativa, seja submetida às pressões, adotando estas mesmas pressões como sua própria norma – com as quais ela, agora, “educa” seus filhos -, seja brigando, rebelde, contra elas mas sem realmente alterar o status quo – aliás, freqüentemente, ao cabo de um tempo, aceitando-o?
Uma tentativa de resposta pode ser vislumbrada na condição de interdependência na qual vivemos. Somos únicos, independentes em nossa singularidade, profundamente solitários podemos dizer; entretanto, apenas existimos porque o Outro existe. Somos seres absolutamente dependentes, portanto. Se não fizermos parte da teia da existência seremos inviáveis. É necessário nos sentir parte da rede que constitui a Vida. Quando somos muito pequenos vivemos uma entrega completa ao que pede nossa ética pessoal e, assim, nos manifestamos claramente sobre o que necessitamos. Se somos supridos, vivemos; se não, seremos excluídos da rede, morremos, deixamos de existir – esta a tremenda sensação percebida por cada um de nós. Aos poucos – às vezes muito precocemente e nem tão aos poucos – percebemos que algumas de nossas manifestações não são bem aceitas e – com deliciosa malícia, diria Janus Korczak – realizamos escolhas que, supomos, vão nos manter vivos, aceitos, seres com permissão para existir.
Tais escolhas são, básica e didaticamente, duas – nenhuma melhor que a outra. São, ambas, defensivas, isto é, negam a ética pessoal para nos colocar adequados à ética social e, deste modo, nos transmitem uma certa sensação de segurança – falsa, pois às custas de nossa legítima singularidade. E é, cabe dizer, na vivência ajustada à nossa Individuação que encontramos a verdadeira sensação de segurança e paz. As duas escolhas: (1) uma atitude de caráter introspectivo, yin, contraída, submissa ou (2) outra de caráter extrovertida, yang, expansiva, impositiva. Esta última está em consonância com a forma pela qual a sociedade moderna se organiza e, muito freqüentemente, não são consideradas como inadequadas e, por algum tempo, são confundidas com sucesso. É bom lembrar que estas possibilidades podem ser usadas adequadamente – uma vez que elas não carregam em si uma adjetivação, são forças naturais e indispensáveis à vida – e, neste caso, conformarão atitudes protetoras, não defensivas, não negadoras da ética pessoal; ao contrário, são as ferramentas necessárias para a construção de uma estrutura de bem estar e liberdade.
As instituições sociais são, infelizmente mas de modo geral, construídas por seres que esqueceram suas éticas pessoais e aprofundaram uma atitude defensiva doentia e negadora da vida. Pessoas que temerosas e distantes de seus fluxos vitais primordiais, sentindo-se profundamente ameaçadas de serem excluídas do processo vital criaram estruturas que “produzem, mensuram valores” e hierarquizam pessoas, grupos sociais que mantêm a idéia de que o critério de uma pessoa – do grupo dominante – vai determinar o que e quando outra pessoa – do grupo dominado – deve aprender ou ser. Ambos os grupos estão doentes de doenças diametralmente opostas.
As aspas revelam palavras de Ivan Illich em relação, especificamente, a uma destas instituições: a escola. Duramente ele se refere à escola como um lugar cujo resultado final termina por “bitolar a visão humana da realidade”, um lugar que trabalha no sentido de ajudar “os alunos a adaptarem seus desejos – abrindo mão de si mesmos – aos valores à venda”.
Aquele que está, realmente, disposto a propor – e viver – uma Pedagogia Libertária, uma Educação, de fato, Democrática, precisa estar disponível, com coragem e ternura, a reencontrar-se consigo mesmo, a manifestar-se de acordo com sua Individuação, a recuperar e responsabilizar-se por sua ética pessoal, a distinguir a verdadeira responsabilidade pessoal, real, de outra, falsa e ilusória e a, profundamente, respeitar a ética do Outro: a criança, a jovem, o jovem.
Cumuruxatiba, agosto de 2007
Alexandre Cavalcanti
Coordenador do Projeto de Gente
terça-feira, 31 de julho de 2007
Um bom ponto de partida
Um bom ponto de partida!
Comecemos ensaiar etnografias...
Plenas de narrativas de liberdade
Porque permitem perceber pessoas, diferenças em suas singularidades ...
(Helena Ponce Maranhão)
Comecemos ensaiar etnografias...
Plenas de narrativas de liberdade
Porque permitem perceber pessoas, diferenças em suas singularidades ...
(Helena Ponce Maranhão)
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