Rainer Maria Rilke escreveu para um amigo: “Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar, - como uma maneira de ser particularmente feliz e pura.”
Todo adulto deve falar assim para si mesmo e, talvez principalmente, falar o mesmo para toda e cada criança (claro que não exatamente nessas palavras, e sim na fala-ação das crianças).
Todo adulto deve se perguntar, todos os dias, qual a pergunta sobre si mesmo ele ainda não tem a resposta; qual a pergunta ele precisa ainda viver. E, ouvindo-a, nenhum adulto deve negá-la sob pena de jamais viver a resposta, construindo, deste modo, uma vida incompleta.
Todo adulto tem o direito de ter o tempo necessário para, “aos poucos, sem que perceba, num dia longínquo, conseguir viver a resposta”, e, assim, organizar uma vida mais plena.
Todo adulto deve falar assim para si mesmo e, talvez principalmente, falar o mesmo para toda e cada criança, pois todos nós nascemos, cada criança nasce, com uma, ou melhor, várias perguntas para as quais ela não terá resposta por um longo tempo. Perguntas cujas respostas estão já prontas, respondidas, em algum recanto de seu interior, uma vez que todos já somos nuclearmente quem somos desde que nascemos – nossa impressão digital não nasce em nosso irmão ou irmã –; porém ela, a criança, precisa aprender a formular as perguntas, as tão humanas perguntas: o que, realmente, desejo da vida?, onde sinto mais dor?, a que sou mais sensível?, do que necessito para, realmente, me sentir vivo? Perguntas do corpo e da alma, antigas, muito antigas perguntas: quem sou?, como organizo meu bem-estar?
Assim como nascemos objetivamente incompletos – faltam-nos dentes, enzimas no aparelho digestivo, capas de proteção dos neurônios, etc e etc -, também nascemos sutilmente incompletos – falta-nos consciência de quem somos.
Todo adulto deve oferecer campo, o mais fértil que puder, para que cada criança possa descobrir e viver suas perguntas; nenhum adulto deve, sequer tentar, respondê-las por elas. Ao contrário, deve ajudá-las a perceber que ninguém “deve (apenas) olhar para fora (para responder suas perguntas); que não há senão um caminho: procure entrar em si mesmo; (...) examine-se, estenda suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo (...) na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado (a ser, a realizar, isto que sinto que sou)?’. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa sua vida de acordo com esta necessidade”, volta a nos ensinar Rilke.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, maio/08
domingo, 10 de agosto de 2008
A CRIANÇA LEGAL, A CRIANÇA ILEGAL
Direto ao ponto: quando dizemos que uma criança é legal, bacana, estamos, no contraponto, dizendo que outra não é legal, não é bacana. Neste momento, estamos fazendo um julgamento – muito provavelmente, fundado em nossos próprios sentimentos, sensações, vivências – e realizando uma escolha; isto é, preferimos este àquele, o “legal” ao “não legal”.
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
A CRIANÇA LEGAL, A CRIANÇA ILEGAL
A CRIANÇA LEGAL,A CRIANÇA ILEGAL
Direto ao ponto: quando dizemos que uma criança é legal, bacana, estamos, no contraponto, dizendo que outra não é legal, não é bacana. Neste momento, estamos fazendo um julgamento – muito provavelmente, fundado em nossos próprios sentimentos, sensações, vivências – e realizando uma escolha; isto é, preferimos este àquele, o “legal” ao “não legal”.
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
Direto ao ponto: quando dizemos que uma criança é legal, bacana, estamos, no contraponto, dizendo que outra não é legal, não é bacana. Neste momento, estamos fazendo um julgamento – muito provavelmente, fundado em nossos próprios sentimentos, sensações, vivências – e realizando uma escolha; isto é, preferimos este àquele, o “legal” ao “não legal”.
Naturalmente podemos nos sentir mais afinados com certas qualidades de uma pessoa do que com as de outra. Assim, alguém pode se sentir mais confortável entre os introspectivos, quietinhos, enquanto outra pessoa se sente melhor entre os extrovertidos, irrequietos. Entretanto, não podemos perder de vista que estes não são melhores do que aqueles.
Também não podemos perder de vista que a extroversão ou a introversão (apenas para seguir no exemplo escolhido) é também uma escolha – muitas vezes inconsciente – feita por alguém que se sentiu tocado em algum lugar que está por atrás desta atitude; isto é, alguém reage introvertida ou extrovertidamente porque algo lhe aconteceu. Assim, uma criança – ou adulto – tocada em um ponto especialmente sensível de seu ser pode reagir de um modo ou outro. Esta reação vai depender de múltiplos fatores: o “quantum” ele próprio tem de uma tendência natural para a introversão ou a extroversão, a aceitação social de uma ou outra possibilidade, um momento especial pelo qual passa essa pessoa, etc.
Por exemplo, alguém tocado em sua sensibilidade à rejeição – e, para este alguém, esta é, em nosso exemplo, uma sensibilidade bem marcada, especial, idiossincrásica – pode escolher: (1) se retirar do mundo, eremetizar-se, entristecer, deprimir ( como que dizendo para si mesmo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado) ou (2) “sair para a balada” todas as noites, socializar-se excessivamente, sem contato com o que ou quem realmente deseja, euforizar-se ( como dizendo: “não preciso de ninguém especialmente, não corro mais o risco de ser abandonado). Claro que estamos, de certa forma, simplificando algo mais complexo apenas para compreender melhor a idéia central. Usamos a expressão “de certa forma” porque é, de fato, uma simplificação, porém, não um exemplo inverossímil. A simplificação corre por conta de que não somos especialmente sensíveis a apenas uma circunstância, e sim a um leque, um complexo de sentimentos.
Se usarmos uma das duas possibilidades – a (1) ou a (2) do parágrafo anterior – para esquecer o que nos aconteceu, provavelmente, estaremos seguindo – construindo – uma rota de confusão, mal-entendidos e mal estar,... incluindo mal estar físicos, isto é, a doença.
Porém, se nos recolhemos ou nos encontramos com outras pessoas – com o mundo – sem perder contato com nossa dor, nossa ferida, nossa sensibilidade essencial, sem negá-la, sem tentar esquecer sua existência, isto é, deixando a ferida limpa, não infeccionada, então, temos uma boa chance de estarmos, de verdade, cuidando bem desse recanto sensível de nosso ser. Deste modo, estaremos conhecendo esse lugar que, de fato, nos identifica como ser humano e um ser humano singular – pois nenhum outro terá o mesmo complexo de sensibilidades arranjado como naquele ser. Aceitando-o como parte inerente a nós mesmos estaremos legitimando nossa sensibilidade e, deste modo, cada vez mais, aprendendo a lidar melhor com ela.
Uma criança que é percebida, por um de nós, como “não legal” está escolhendo uma via que nos perturba, incomoda, mas que, para ele, talvez tenha sido, e talvez ainda seja, a única escolha vislumbrada e mesmo a única possível. Uma via que lhe alivia – porém ilusoriamente – a dor que ela mesma não tem consciência. A dor negada, esquecida, mas que continua, em um nível muito profundo e sutil, a ser sentida.
Assim, uma criança “não legal”, não é aquela bagunceira, brigona, encrenqueira; a criança “legal” não é aquela quietinha, boazinha, certinha e obediente. Ambas, podem estar realizando escolhas inadequadas – reativas, aprisionadas – ou adequadas – ativas e ajustadas a si próprias.
Se quisermos, de fato, dar algum apoio às crianças, talvez um caminho seja tentar identificar a dor, o ponto de sensibilidade, a sensibilidade pessoal de cada uma para que, compreendendo e respeitando este lugar, possamos, não apenas não tocar nessa ferida, mas, principalmente, fornecer campo para que a criança possa reorganizar, ela mesma, sua maneira de reagir, escolher novos caminhos, passando então a agir de outro modo, de uma maneira mais ajustada consigo mesma e menos influenciada pelo meio em que vive; isto é, verdadeiramente autônoma.
Este campo é, necessariamente, um campo amoroso.
Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril/2008
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