(reflexões, estratégias e ferramentas)
Vamos imaginar um cenário: um circo de lona azul... solto no espaço e, nele, um grupo de pessoas cujo sentido de vida – ou projeto de vida, instinto vital – é... brincar no trapézio.
Bebês, crianças pequenas, meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres maduros, idosos e idosas estão balançando em inúmeros trapézios. Alguns deles cruzam suas trajetórias, exigindo harmonia de movimentos e combinações; outros estão badalando sozinhos. Existem os que estão apenas sentados – os olhos arregalados -, segurando com as duas mãos as cordas que prendem o trapézio ao teto; os muito pequeninos têm um cinto de segurança; outros, maiores, arriscam saltos, piruetas no ar; aqui e ali velhos homens e mulheres, mais experientes, deslizam sentados e ensinam truques, dão algumas dicas aos mais jovens que, reconhecendo suas possibilidades e limitações, arriscam, experimentam, ganham coragem, constroem autonomia e coreografias pessoais.
Porém, de vez em quando, alguém despenca no vazio, tenta agarrar-se ao trapézio, a uma solidária mão estendida, em vão. A queda é assustadora, a velocidade crescente paralisa a respiração, o grito fica preso na garganta contraída, o chão aproxima-se rápido, o prazer do balanço, a alegria da brincadeira transformam-se, súbito, em MEDO, MEDOS: de nunca mais brincar no trapézio, de não mais sentir o vento no rosto, de não mais se alegrar quando o truque combinado funciona e o companheiro está em segurança depois do salto no espaço. Medo de morrer, medo de perder a motivação para viver, medo de não mais existir.
Feliz aquele que encontra uma REDE no meio da queda e pode, então, mais experiente, reorganizar-se e voltar ao trapézio, à vida plena; feliz a comunidade que constrói, conserva e aprimora esta REDE; feliz a sociedade que se despede, pacificada e serenamente, de seus velhos e velhas quando estes caem, naturalmente, de seus trapézios e adormecem antes de alcançar a rede que, agora, os aconchega.
O Projeto de Gente deseja, e se propõe a, participar da construção de uma REDE DE PROTEÇÃO para as crianças e jovens de Cumuruxatiba e, por extensão, para toda comunidade.
Embora não seja o mais importante, é interessante definir o que é REDE, no sentido que estamos usando. Na definição de Cássio Martins, REDE é “uma forma de organização democrática constituída por elementos autônomos, interligados de maneira horizontal – uns ao lado de outros – e que cooperam entre si” [1].
Quando pessoas se organizam, o mais freqüente é construírem uma estrutura em que uns estão acima de outros – como uma pirâmide, com o presidente no topo. Propomos uma alternativa: construir uma estrutura horizontal, não vertical; entrelaçada, não em forma de pirâmide; que ligue pessoas e também pessoas que participam de associações que desejam compartilhar o mesmo objetivo.
Qual a possível contribuição do Projeto de Gente para que se possa tecer esta rede?
Nosso foco inicial e principal é, e sempre será, as crianças e os jovens. Estaremos sempre voltados para eles, pois, o trabalho “tem, acima de tudo, a intenção de reconhecer, valorizar e favorecer a legítima manifestação do projeto de vida que cada um traz, misteriosa mas legitimamente, inscrito em si mesmo”. Este o ponto de partida... e de chegada!
Como moramos numa vila chamada Cumuruxatiba, estamos, naturalmente, nos referindo às crianças e jovens que vivem em Cumuruxatiba. Daí a importância de conhecer – sempre mais e através do olhar das crianças e de suas famílias, não importando se nascidas aqui ou não – a realidade em que vivem; realidade pessoal e comunitária.
A metodologia que apresentamos a seguir, com algumas alterações por conta das diferenças regionais, é profundamente inspirada na experiência do Espaço Compartilharte, um trabalho social e educativo vivido junto às famílias da zona rural de Teresópolis, RJ.
De modo que, definido o grupo de crianças junto ao qual estaremos trabalhando, propomos:
“ 1. Conhecer – mais e melhor – a comunidade, (re)construindo a história da vila de modo participativo e compartilhado.
Como é a história da vila? Como você conta a história da vila?
Como se originou?
De onde vem seu nome?
De onde vêm seus moradores?
O que é bom e fácil, chato e difícil ao morar nesta comunidade?
Quais os grupos e organizações que atuam na vila?
Como realizar a pesquisa? Visitas domiciliares, eventos na sede do Projeto para este fim, oficinas sobre o tema, pesquisa histórica, etc.
2. Conhecer as famílias (família, tema sempre delicado!)
Como é a história de sua família? Como contam esta história?
Como ela é composta?
De onde vem seu nome?
Como estão vivendo hoje?
Como realizar a pesquisa? Visitas domiciliares, eventos e oficinas na sede do Projeto.
3. Conhecer as organizações que podem interagir com o Projeto de Gente na construção da rede.
Quais são estas organizações?
Como pode ser feita a interação?
O que pode facilitar e o que pode dificultar as ações interligadas?
Quais são as “agulhas e linhas” que o Projeto de Gente pode oferecer para ajudar a tecer a rede?
1. Corações e mentes permanentemente abertos para ouvir os sinais que expressam quem é, de verdade, cada determinada – e única – criança: sua Individuação.
2. Um cotidiano vivido em bases democráticas onde, nas assembléias e rodas diárias, a criança e o jovem – na medida de sua idade e interesses – têm vozes ativas e decisivas.
3. Oficinas de Saber e Fazer. Os projetos de trabalho – sempre que possível criados a partir dos interesses manifestados pelas crianças – através dos quais vão ganhar conhecimentos, informações. São constituídos por grupos definidos de pessoas.
4. Eventos sociais com foco na convivência e compartilhamento de conhecimentos e habilidades.
5. Atividades geradoras de renda. Atividades que podem acontecer na própria sede do Projeto e que podem contar com pessoas da comunidade envolvidas com os conceitos do trabalho.
6. Visitas domiciliares, encontros individuais ou com familiares na casinha do Projeto com o objetivo de criar focos de reflexões, debates, vivências e, quem sabe, soluções de questões individuais ou comuns.
Além disso, o próprio Projeto deve:
1. Organizar espaços de reflexão e desenvolvimento de seus profissionais, isto é, estar sempre atento a exercícios de capacitação através de constante troca de impressões, estudos de temas afinados ao trabalho. Claro que com a marca do Projeto de Gente: leveza e seriedade ao mesmo tempo.
2. Estudar formas de avaliação do trabalho; desenvolver processos de planejamento que organizem os passos do trabalho; criar formas de registrar as vivências e o conhecimento acumulado ao longo de sua existência.
3. Expor suas idéias, sempre que possível, em fóruns adequados e contributivos ao seu desenvolvimento.”
Alexandre Cavalcanti
Coordenador do Projeto de GenteCumuruxatiba, 10 / 08 / 2007
[1] Ver: MARTINS, Cássio. Rede: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. São Paulo : WWF. 1ª ed., 2003.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
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